Affonso Romano de Sant'Anna, especial para o Caderno 3
Affonso Romano de Sant'Anna recupera a descoberta de José Helder de Souza, de que o personagem de Jorge Amado seria baseado em um sobralense.
Já que está sendo lançado esse filme sobre o Quincas Berro D'Água, no qual o Paulo José encarna o personagem ambíguo, que mesmo depois de morto continuou a fazer estripulias pelas ladeiras, bares e prostíbulos de Salvador, vejo-me compelido a trazer a público alguns fatos praticamente desconhecidos a respeito deste contraditório e fascinante personagem.
Naquela novela escrita por Jorge Amado para a antiga revista Senhor (1959) pressupõe-se que o Quincas era um baiano. Pois, alto e bom som, venho lhes advertir, esqueçam disto, pois Quincas era cearense.
Como assim? Vai retorquir o leitor de Jorge Amado completamente enleado pelo mundo do cacau de Ilhéus e Itabuna e pela mítica Salvador? É cearense, repito. E querem saber de outra coisa? A estória original não se passa nem no Pelourinho, mas aconteceu no Rio de Janeiro e outras cidades.
E já que a vida e a ficção são cheias de surpresas vou ainda mais fundo desnudando as origens dessa genial e incrível novela: o verdadeiro nome de Quincas, não é Joaquim Soares da Cunha como solipsisticamente o disse o romancista baiano. O Quincas real tinha, aliás, um nome muito mais mítico, pois se chamava Plutarco, cabo Plutarco. E já que estou rasgando os véus da ficção e da realidade avanço mais: o nome do Quincas/ Plutarco era esse: Wilson Plutarco Rodrigues Lima e nasceu em 1920, em Sobral, Ceará.
E agora?
Jogar o livro fora? Processar Jorge Amado?
Nada disto, agora é que a novela fica ainda mais interessante, porque estamos aprendendo uma lição não só sobre as origens de uma obra de arte, mas constatando a simbiose entre vida e literatura.
E Jorge sempre esteve visceral e baianamente ligado à vida. Aquela narrativa originalmente já fantástica ele a ouviu, em 1958, no Ceará numa rodada de bebida e bate papos com amigos, quando ali foi receber o titulo de Doutor Honoris Causa da Universidade do Ceará.
Estou pressentido que você está achando isto intrigante, mas nem por isto não vou contar o resto. Contei o máximo que pude num texto que acompanha a mais nova edição de A morte e a morte de Quincas Berro D'Água (Cia. das Letras). Mas o que fiz foi de certa forma alardear a descoberta, não minha, mas de José Helder de Sousa, que em 1982 publicou um opúsculo pouquíssimo conhecido: Cabo Plutarco, o Berro d´Água, pela imprensa da Universidade do Ceará. Ali, conta coisas interessantíssimas sobre a estória que Jorge ouviu de amigos numa espécie de boate sintomaticamente chamada "Maracangalha".
As pessoas, considerando seus grandes dramas e amores vividos, costumam dizer: "minha vida daria um romance". Lamento decepcioná-las. Não daria. A vida em si não é um romance. Carece de um romancista para a transformar e fixá-la através de técnicas expressivas.
E foi isto que Jorge Amado fez. Ele tinha um ouvido danado de afinado para ouvir e gravar estórias. Isto é igual ao compositor, que ouve coisas que ninguém está ouvindo ou transforma em partitura o que se perderia no espaço.
Eu já havia antes escrito um ensaio sobre essa novela de Jorge que, aos interessados informo, está no livro: Que fazer de Ezra Pound (Imago). Analisava gostosamente a técnica da "carnavalização" aplicando teorias de M. Bakhtin. Essa novela tornava-se riquíssima através daquela análise. No entanto, diante desses novos fatos trazidos por José Helder e retrabalhados por mim, Quincas Berro d´Água tornou-se ainda mais fascinante.
Quem quiser que confira. O fato é que Quincas não desapareceu num saveiro numa noite de tempestade na Bahia. Está enterrado no Cemitério do Caju no Rio, no canteiro 6059, e ainda agora recebi um e-mail de um de seus descendentes pronto para novos esclarecimentos.
Affonso Romano de Sant'Anna é poeta, crítico e ensaísta. Autor de livros como: Que país é este? (poemas) e Drummond, o Gauche no Tempo (crítica).
Fonte: Diário do Nordeste, de 2/6/2010, http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=794245
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