terça-feira, 11 de maio de 2010

* O Globo*, 8 maio 2010: *Livro narra surgimento da vida literária e consolidação de mercado para as letras no Brasil do século XIX*

Entrevista: Ubiratan Machado
Mais que um movimento artístico, o romantismo brasileiro foi um momento de consolidação da esfera intelectual num país que, mal saído da condição de colônia, buscava se afirmar como urbano e cosmopolita. Resgatando personagens maiores e menores da época (de José de Alencar e Machado de Assis a anônimos tradutores de Byron), o jornalista e escritor Ubiratan Machado narra em A vida literária no Brasil durante o romantismo (Tinta Negra) as condições que possibilitaram, no século XIX, o surgimento de um público para a literatura, o nascimento da crítica nos jornais e a penosa profissionalização do mercado editorial, num ambiente pródigo em polêmicas que transbordavam das páginas para bares, cafés e salões. Inspirado na obra do crítico Brito Broca (autor de A vida literária no Brasil - 1900, que morreu em 1961 sem completar seu projeto de escrever a história da vida literária nacional), Machado diz, em entrevista por e-mail a O Globo, que trabalha atualmente num volume sobre o período colonial.
Guilherme Freitas
Brito Broca faz uma distinção entre vida literária e literatura, dizendo que “embora ambas se toquem e se confundam, por vezes, há entre elas a diferença que vai da literatura estudada em termos de vida social para a literatura em termos de estilística”. Levando em conta esta distinção, qual é a importância do estudo da vida literária?
Muito mais do que uma escola literária e artística, o romantismo foi uma grande revolução no pensamento e na sensibilidade do Ocidente. O predomínio do sentimento sobre a razão e a introdução de personagens burgueses, pobres e até repudiados, como prostitutas e bandidos, na literatura, antes privilégio de nobres, correspondia ao desejo de mudança e de justiça social que fervia à época, ampliando em muito as proposições iluministas do século XVIII. Jorge Luis Borges dizia que o romantismo foi “um estilo vital” e que sua história pode prescindir das obras de Byron, mas não de sua vida agitada e de sua morte iluminada. Fica fácil, assim, compreender a importância do estudo da vida literária, sobretudo quando relacionada com a realidade histórica, política e social da época, como procurei fazer em meu livro.
O senhor mostra que o romantismo foi um período decisivo na formação de um público leitor para a literatura. Como isso se deu?
O romantismo no Brasil correspondeu ao período de afirmação da nacionalidade, de enriquecimento do país e de crescente processo de urbanização. A eclosão romântica se deu em 1836. Anos antes, em 1827, foram criadas as faculdades de Direito de Recife e de São Paulo, além das escolas de medicina do Rio de Janeiro e de Salvador, e da Escola Politécnica do Rio. Formava-se assim um público instruído, comprador de livros, com bom poder aquisitivo. E esses rapazes eram românticos inveterados e apaixonados por leitura. Além dos estudantes, o público leitor era formado sobretudo por mulheres. Jovens e sonhadoras, iaiás sentimentais, às quais a poesia e o romance abriam perspectivas infinitas de evasão de suas vidas monótonas, controladas com pulso de ferro pelo pater familias ou pelo marido. Natural, pois, que dessas leitoras surgissem as primeiras mulheres a reivindicar e lutar pelos direitos das mulheres.
A atividade literária era vista com bons olhos pela sociedade?
Era vista de forma ambígua. Enquanto estudantes, os rapazes podiam poetar à vontade. A sociedade considerava tal atitude como uma rapaziada inofensiva. O negócio se tornava sério quando o estudante se tornava bacharel, médico ou engenheiro. Se continuasse a escrever poesias ou romances, corria o risco de ninguém acreditar nele como profissional, além de ser considerado desajustado e/ou efeminado. O médico Manuel Antônio de Almeida desistiu da profissão por considerar que ninguém iria consultar um doutor que fazia versos. Martins Pena só lançou a sua primeira peça depois de ingressar no serviço público, temendo que a divulgação de sua vocação literária impedisse o acesso ao emprego. Alguns mais corajosos continuaram escrevendo em jornais e publicando livros, apesar dos contratempos que isso acarretava. José de Alencar foi ridicularizado na Câmara dos Deputados por ser romancista.
Qual foi o papel de D. Pedro II na vida literária brasileira?
D. Pedro II foi um grande incentivador da literatura e da vida literária. Talvez uma forma de compensar a sua frustração pessoal de escritor medíocre. Desde cedo, ele procurou influir na vida intelectual do país, atuando como um príncipe renascentista, mantendo em relação a artistas e escritores uma atitude ao mesmo tempo paternalista e imperiosa. Não hesitava em tirar dinheiro do próprio bolso para pagar a edição de uma obra, caso de "A Confederação dos Tamoios", de Gonçalves de Magalhães, ou patrocinar autores. Por vezes, procurava modelar as tendências literárias ao seu gosto pessoal. Esse desejo de influir nos rumos da literatura através da vida literária fica evidente com as reuniões organizadas no Paço, da qual participavam os grandes escritores da época, Francisco Otaviano, Machado de Assis, Taunay, e nas quais o imperador sempre arranjava um jeitinho para recitar seus próprios poemas, sem se abalar com os risinhos debochados, mas discretos, dos presentes. Nesse período, o mercado editorial também começa a se articular.
Como eram as relações entre editores e escritores?
Para usar uma expressão bem ao gosto dos românticos, diríamos que escritores e editores se relacionavam como irmãos inimigos. Um necessitava do outro, mas o escritor tinha de pagar pela impressão de seu livro. O que se chamava editor à época era um dono de tipografia que, aliás, não tinha estrutura para arcar com os custos de uma edição. Ou cobrava ou não havia livro. Como muitos autores não tinham recursos, recorriam ao sistema de subscrição. Faziam uma lista e saíam colhendo assinaturas e um percentual de dinheiro correspondente que, somado aos dos demais, cobria os custos da edição. O quadro começa a mudar com Paula Brito, o primeiro editor brasileiro, homem com uma visão empresarial fantástica, que as limitações do meio impediram de desenvolver. Ele chegou a idealizar um sistema nacional de distribuição de livros, antecipando-se em setenta anos a Monteiro Lobato. Brito editou alguns autores por sua conta, mas a regra era cobrar do editado. Não tinha como ser diferente, a menos se quisesse falir. A revolução iniciada por Brito foi completada pelo livreiroeditor francês B. L. Garnier, que iniciou a sua atividade editorial no final da década de 1850. Muito injustiçado pelos contemporâneos, por ser rico e judeu, foi o primeiro editor a lançar livros sem cobrar do autor por isso e, ainda por cima, pagando-lhe direitos autorais. Além disso, deu uma grande dignidade ao livro de autor nacional, passando a imprimi-lo na França.
O senhor nota que os críticos tendiam a escrever textos leves, "borboleteamentos", ou simplesmente elogiar os amigos, sem uma análise mais rigorosa das obras. Por quê?
A prática do elogio mútuo era muito cultivada. Fazer qualquer restrição a um autor era comprar um aborrecimento, se não um inimigo. O círculo literário era muito pequeno, as pessoas se viam a toda hora, esbarravam nas livrarias ou confraternizavam nos saraus. Então, para que buscar sarna para se coçar? Houve exceções: Gonçalves Dias arrasando o pobre Teixeira e Sousa, Manuel Antônio de Almeida, o primeiro a tentar a crítica militante no Brasil, Bernardo Guimarães. No entanto, nenhum deles tinha verdadeira vocação crítica. Atuavam ao sabor do momento, estimulados pela volúpia de atacar, por vezes ultrapassando os limites da polidez e do respeito humano. O cenário muda com Machado de Assis, que se iniciou no gênero na década de 1860, revelando-se um crítico excelente, equilibrado e ponderado, mas logo seguindo outros caminhos.
Já foi observado que a vida literária contemporânea passa por um momento muito ativo, com a proliferação de festivais literários e o uso expressivo da internet como meio de divulgação e debate. O senhor acompanha a vida literária contemporânea? É possível traçar paralelos entre nossa época e o romantismo?
Não acompanho, mas talvez haja um fundo de romantismo em todas essas manifestações.

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