Louvação do bom livreiro
A publicação do catálogo da José Olímpio suscita esta crônica, datada de 23 de abril de 1949. Rachel louva a atuação incansável do livreiro, editor de sua obra e de tantos outros importantes nomes da literaturaRachel de Queiroz
29 Maio 2010Nascida em Fortaleza, a escritora Rachel de Queiroz (1910-2003) é destaque nas páginas do O POVO por todo o ano. Em homenagem ao centenário da autora de O Quinze (1930), o jornal divide com seus leitores parte do acervo de cerca de duas mil crônicas.
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Esta crônica que hoje vem comemorar a publicação do novo catálogo da Livraria José Olímpio Editora. Pode à primeira vista parecer que todos os que escrevemos a esse respeito estamos dando, talvez, uma importância demasiada ao que no fim de contas vem a ser um acontecimento rotineiro na vida comercial de uma grande editora. Acontece porém, que, para nós, os da literatura brasileira, esse catálogo não é apenas uma lista de vendas de produtos comerciais: é, antes de tudo, uma espécie de anúncio das nossas produções, o registro da nossa atividade de escritores brasileiros. Uma espécie de índice de toda a moderna literatura nacional. Pequenos a grandes, estreantes e veteranos, estamos todos ali, fora poucas exceções - e confesso que há exceções da maior importância - Manuel Bandeira, Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, por exemplo; contudo creio que os dedos das mãos dariam para contá-las todas. E tirando-se essas exceções, que servem apenas para confirmar a regra, pode-se afirmar que toda a literatura brasileira, através dos seus nomes mais expressivos, aparece nos catálogos daquela casa. E pois quem quiser se informar acerca dessa literatura, que leia aquele catálogo.
Não sei se todos dão ao livreiro José Olímpio o valor real que tem esse homem no mundo das letras. A sua intuição, a segurança dos seus julgamentos, o seu bom gosto, a sua imensa capacidade de ser amigo, a sua lealdade, a sua exemplar probidade como homem particular e como homem de negócios. Jamais permitiu que os seus sentimentos políticos ou religiosos, ou que as convivências comerciais da sua casa influissem em quantidade ínfima, sequer, no livre direito de expressão dos seus editados. Antes é ele o mais estrênuo defensor dessa liberdade, e creio que preferiria fechar as portas da editora a pedir a um dos seus autores que alterasse uma linha sequer num original por amor de algum interesse ou receio subalterno. O contrário é que acontece - e vê-se mais de uma vez o editor a estimular o autor tímido ou tíbio a correr os riscos do público, a depender apenas do julgamento do público, a considerar o público seu único juiz. Jamais deixou de se interessar pela edição de uma obra de arte de ciência por motivos que não se liguem diretamente ao mérito daquela obra - e basta a leitura do catálogo em questão para comprovarmos o democrático ecletismo que norteia a sua escolha de livros. E não se diga, porém, que tal catálogo se observa apenas entre autores nacionais, em cujo meio não há muito para escolher. A seleção de traduções, feita sob a direta responsabilidade da casa, põe na rua Santa Teresa d-Avila e Leon Trotski, a Imitação de Cristo e as Ilaisons Dangereuses, Catanova e Dostolevski - porque o que lhe interessa é a obra de arte e o seu valor intrínseco, e a indispensável contribuição para a cultura brasileira que representa a sua vulgarização em bom vernáculo.
Outra virtude essencial do editor José Olímpio é o seu respeito pela dignidade do escritor - dignidade de profissional e dignidade de indivíduo. Sendo ele o grande animador, o grande difusor da moderna literatura brasileira, lançando constantemente nomes novos, ampliando o âmbito de expansão dos nomes feitos, jamais entretanto tomou ares de mecenas; jamais alegou em conversas particulares ou em entrevistas de imprensa os benefícios que fez, os sacrifícios que aceitou por amor da cultura. E jamais igualmente caiu no erro oposto - o de nos tratar como simples produtores da mercadoria que ele vende, sabendo, sempre estabelecer a essencial diferença que existe entre o trabalho manual e o labor intelectual.
Falei na honestidade proverbial da Casa. Todos que, como nós, com ela transigimos praticamente desde a sua fundação, poderemos apresentar testemunho do que é essa honestidade. Nunca vimos alterada ou censurada em alguns dos nossos originais uma palavra, uma vírgula ou menos por amor de qualquer consideração imaginária de segurança ou conveniência.
Ali, os cortes únicos que já nos sugeriram foram pelo sabedor Aduardo, nos erros de português...
Nunca nos foi insinuado, por qualquer das pessoas da casa, esta ou aquela orientação para a obra que muitas vezes antes até de estar escrita já está vendida e paga, dependendo essa antecipação das necessidades da nossa bolsa...
Nunca, por exemplo, nestes anos e anos de negócios, entre nós e a nossa editora foi escrito qualquer termo de contrato, pois nunca houve necessidade de documentos entre a casa e os seus editados para que seja respeitada a correção e a boa fé entre as duas partes contratantes. Contam-se por dezenas as traduções que já fizemos para eles, por eles foi editado ou reeditado tudo que temos produzido, e querido publicar nestes 18 anos de atividade literárias; e deixando ao arbítrio da casa a retribuição ao nosso trabalho, jamais tivemos que nos queixar por remuneração injusta, deficiente ou retardada.
Jamais, absolutamente jamais, ouvimos uma queixa referente àquilo que em 90% dos casos é motivo de brigas entre editor e editado: o excesso de volumes tirados acima do número combinado para a edição; a casa desconhece praticamente a fiscalização dos autores, a rubrica autoral, a numeração de tiragem; é que essa fiscalização sempre foi desnecessária, - o nosso melhor fiscal é o nosso editor. E quando aqui digo o "editor", refiro-me não só à pessoa do dirigente da casa: refiro-me igualmente ao complexo de direção que ele criou, à sua equipe diretora dentro da qual se destaca trabalhador infatigável, animador das melhores iniciativas, grão-vizir daquele califado, o irmão e braço direito do chefe, Daniel Pereira.
Foi assim que José Olímpio se fez o grande amigo dos seus editados; detrás da sua banca de trabalho, tratando dos seus negócios e dos nossos negócios. Não precisou ninguém lhe aparecer com apresentações importantes, recomendado por medalhões. Todos nós o desconhecimento igualmente quando o procuramos com o nosso pequeno livro, pedindo-lhe que o mandasse ler e, se possível, editar. Foi em relações de trabalho e de negócios que nos fizemos amigos, não em reuniões sociais; é transigindo conosco, negociando, trabalhando e obrigando-nos a trabalhar, cuidando do nosso patrimônio literário com muito mais ciúme do que cuida da herança dos seus filhos, que ele se tornou para nós todos um amigo indispensável e precioso. Que o afirme não apenas eu, que não sou nada, mas os grandes nomes das letras nacionais; que digam se estou mentindo José Lins do Rêgo, Gilberto Freyre, Otávio Tarquínio de Sousa, Augusto Meyer, Graciliano Ramos, Ciro dos Anjos, Amando Fontes, Genotino Amado, Otávio de Farias, R. Magalhães Júnior, Rubem Braga, Vivaldo Coaracy, Carlos Drummond de Andrade, Aurélio Buarque de Holanda, A. Frederico Schmidt, Gastão Cruls, Pedro Nava, Agripino Grieco, José Geraldo Vieira, Herman Lima, Luís Jardim, Sérgio Buarque de Holanda, Américo Facó, Raul Lima, Álvaro Lins, Aníbal Machado, Valdemar Cavalcanti, Silva Melo, Padre Negromonte, Josué Montelo, Nélson Romero, nomeados todos neste catálogo, e outros nomes ilustres que nele não aparecem por culpa de obras esgotadas e por isso fora do mercado.
Que o digam algumas das maiores mulheres da literatura brasileira - Lúcia Miguel Pereira, Carolina Nabuco, Dinah Silveira de Queiroz, Lúcia Benedetti, Lia Corrêa Dutra, Maria Eugênia Celso.
Quem vive de favor público, como nós, temos, por definição, muitos conhecidos, mas pouquíssimos amigos. Não é de admirar portanto que saibamos identificar os amigos no meio dos conhecidos e dentre os poucos escolher os melhores, dos quais este é dos mais sinceros e dos mais fiéis.
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A costura do tempo
- Nesse dia de 23/4/1949, o escritor e teatrólogo português, Júlio Dantas, concedia entrevista ao O POVO, depois de 26 anos sem falar à imprensa. - Notícias vindas da China, afirmavam que as tropas comunistas, lideradas por Mao Tse-tung, tinham ocupado a cidade de Nanquim.
- O poeta Manuel Bandeira contava a história de sua adolescência e do seu sofrimento ao adoecer de tuberculose aos 18 anos de idade, ficando entre a vida e a morte.
- A Escola de Polícia do Rio de Janeiro diplomava os primeiros oficiais do Exército e da FAB, no curso contra a sabotagem e espionagem.
MULTIMÍDIA
Veja os fac-símiles da página original e da capa do O POVO quando da publicação da crônica em http://www.opovo.com.br/.
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